Nesta quinta-feira, 7 de abril de 2016, o professor Dr. Edson Benedito Rondon Filho, fez uma apresentação do seu trabalho de pesquisa intitulado: “Da situação de rua na Cuiabá dos delírios urbanos: antes e depois da Copa do Mundo FIFA 2014” que integra um dos capítulos do livro: “RuAção: Das epistemologias da rua à política da rua”.
O percurso empreendido pelo pesquisador Edson B. Rondon Filho, como fonte de observação do estudo, é marcado por inúmeras construções que rememoram ao século XVIII, tombadas pelo patrimônio histórico, contrapondo ao movimento frenético do urbano que invadiu aquele espaço, criando um paradoxo entre o que representa o passado e o futuro, presentes na vivência temporal dos cuiabanos de nascença ou por adoção, impactando diretamente a população em situação de rua, invisibilizada nesse processo traumático implementado por conta do projeto “Copa do Mundo” e seu padrão FIFA de qualidade.
Pela orientação fenomenológica, buscou perceber a paisagem e a realidade dos sujeitos observados. O novo e o velho, o jovem e o idoso, o trabalhador e o ocioso, a prostituta e as beatas, meninos de rua e estudantes, ébrios e errantes, convivendo lado a lado; experiência possível no urbano, especificamente na rua, e no seu modo blasé, estranhado depois das bases metodológicas apresentadas.
O sagrado e o profano materializados nos monumentos, prédios, ruas, calçadões e becos contrapõem as pessoas cujas relações são marcadas por maniqueísmo, rótulos e estigmas e ainda despersonificam aqueles que são desprovidos de bens materiais e se encontram em situação de vulnerabilidade, como é o caso da população em situação de rua.
A situação de Cuiabá não difere de outros locais, contando com significações multifacetárias nas relações estabelecidas com a população em situação de rua. Há uma rejeição e um sentimento de medo contra alguns coletivos, como é o caso dos dependentes de drogas e dos perturbados mentais. A rua, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que nomeia, é também espaço de vivências simbólicas, identitárias e materiais (GREGORI, 2000, p. 101) que devem ser compreendidas, reconhecidas e respeitadas dentro das pluralidades possíveis. A solução da problemática passa por inúmeras estratégias que devem procurar estabelecer redes de ação e atendimento entre os diversos níveis de governo e Poderes, bem como a sociedade civil organizada.
O palestrante fez ainda uma apresentação do Projeto “RuAção”. Ouvir as populações de rua, saber quem são, o que pensam, como querem e como são tratadas. Esse foi o propósito de uma pesquisa, a primeira do gênero, realizada por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) como parte do projeto ‘RuaAção’.Coordenado pelo professor Luiz Augusto Passos, os pesquisadores concluíram que a visão e o tratamento que a sociedade dispensa a essa população é perversa, discriminatória e preconceituosa.
Nas palavras do autor que faz a apresentação obra, Boaventura de Souza Santos (2014), a diferença-mãe está na desigualdade entre os corpos e suas palavras. Corpos agasalhados, bem-alimentados, bem-sucedidos na vida, e corpos nus e precários a partilhar o lar da rua, vivendo na sombra da ausência e da morte, muitas vezes ausentes até à morte, seu único momento de presença.
A pungência deste livro, seu risco bem-assumido, reside em espetar nos olhos do leitor os limites do trabalho acadêmico ao ponto de quase o cegar. O fundamental é identificar a linha abissal que cria exclusões radicais. Vinda do colonialismo, essa linha persiste hoje como nunca. Quem está do outro lado da linha é produzido como não existente. Tem de ser invisível porque não existe em nenhuma forma humana ou digna de existir. Por causa da linha abissal, na nossa sociedade, não há humanidade sem desumanidade. Quem vive do lado de lá da linha abissal vive numa situação de fascismo social, a sociedade-civil-incivil. Não é vítima de nenhum estado de exceção porque, desde os tempos coloniais, sempre existiram duas normalidades, cada uma com as suas exceções, uma para valer do lado de cá da linha (nós) e outra para valer do lado de lá da linha (eles e elas como paisagem que, não sendo produtiva, é um embaraço para os nossos turistas desportivos ou outros e deve por isso ser removida). Este livro faz uma sociologia das ausências para, sobre ela, construir uma sociologia das emergências. A dignidade das pessoas da rua e na rua é a fonte onde vão ganhar alento aqueles e aquelas que também fizerem da rua seu lar para protestar e lutar coletivamente por uma sociedade onde haja lar para todos e todas, tanto na rua como em casa. A obra carrega consigo a urgência da denúncia de uma sociedade que desperdiça vida e dignidade humanas como se fossem restos de um banquete fatalmente satisfeito de si. Fá-lo de uma maneira brilhante e, por vezes, empolgada, construído por investigadores e investigadoras conscientes como poucos da sua responsabilidade social, dispostos a dar as mãos, contra tudo e contra todas, por cima da linha abissal (SANTOS, 2014, p.11-12).
A coordenação do curso de Direito e do NUPEDI parabenizam e agradecem ao professor Dr. Edson Benedito Rondon Filho, pela contribuição dedicada ao curso de Direito de FCARP.
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